Eu também quero sonhar com lírios! — Azul é a cor mais quente
Sumário
6 caps
Tema de Leitura
Tipo de Fonte
Tamanho da Fonte
Espaçamento de Linha
Outras Opções
Voltar para a obra

Azul é a cor mais quente

Por MooLucio 19 min 18 Mar, 2026

O sol ainda nem tinha nascido direito.

A luz da manhã escorria devagar pelas paredes do apartamento, entrando sem pedir licença pelas janelas abertas. Uma delas dava direto no quarto de Yuri.

Mas não foi a luz que o acordou.

Ele já estava acordado.

Há um bom tempo.

Talvez por teimosia.

Ou talvez por esperança.

Era o primeiro dia das férias de verão — as últimas antes de terminar a faculdade. No criado-mudo, o relógio marcava 4:00 da manhã.

Só isso já dizia tudo.

Na noite anterior, ele tinha tido seu último sonho.

"Não devia ficar chateado", pensou Yuri, sentando-se na cama.

"Não é como se eu estivesse esperando um milagre".

Ele repetiu isso em voz baixa, quase por hábito, enquanto se vestia e arrumava as poucas coisas que levaria. Não queria deixar a frustração tomar conta — ainda mais hoje, quando teria que lidar com gente o dia inteiro.

— Boa viagem, Yuri!

A voz veio assim que ele saiu do prédio.

O seu Jair estava lá, como sempre, apoiado na vassoura, com aquele sorriso simples e sincero. Provavelmente se preparando para varrer as folhas antes da rua encher de movimento.

— Obrigado, seu Jair — respondeu Yuri. — Quando eu voltar, trago uma lembrancinha pro senhor.

Eles apertaram as mãos.

Forte.

Familiar.

E, de algum jeito... não soou forçado.

Isso o pegou de surpresa.

Ele não devia estar mais triste do que isso?

Mas, naquele momento, desistir parecia estranhamente confortável.

Talvez o que mais tivesse doído não fosse o fracasso...

Mas o tempo que ele passou insistindo.

— Eu realmente tentei realizar pelo menos um daqueles sonhos... — murmurou, só para si.

Dentro do Uber, a cidade deslizava em silêncio pela janela. Yuri repassava os últimos seis meses na cabeça, de novo e de novo. Tentando se justificar. Tentando se convencer. Tentando se perdoar.

Mesmo no terminal rodoviário, com a música estourando nos fones, ele ainda repetia os mesmos pensamentos, como um mantra.

Mas quando o ônibus finalmente encostou no portão de embarque, Yuri já tinha dito tudo o que precisava ouvir.

Antes de subir, ele parou.

Respirou fundo.

Como um ritual, precisava aceitar.

Precisava deixar isso pra trás.

— Mas eu falhei... — sussurrou.

— Falhei em todos eles.

A paisagem começou a mudar aos poucos.

E, com ela, algo apertou de leve o peito dele.

"Bem-vindo a Icugimirê."

A placa passou rápido. Depois dela, surgiram as encostas... e então o azul profundo do mar. A luz do sol invadiu o ônibus, fazendo Yuri semicerrar os olhos.

Quando a visão se ajustou, o horizonte se abriu diante dele.

O oceano se estendia sem fim.

De volta ao lugar onde ele tinha crescido.

Sua cidade natal.

Pouco depois, ainda perto da entrada da cidade, outra placa apareceu.

Uma que ele conhecia bem.

"Pico-do-Sol Eco Resort."

O resort dos pais dele.

Onde nasceu e cresceu.

Yuri já tinha avisado o motorista para parar ali. Desceu do ônibus carregando só uma mala.

O resto das coisas já estava lá.

Sempre estiveram.

Ele ficou parado em frente ao portão por alguns segundos.

Sua mente ficou em branco.

Uma sensação estranha tomou o peito dele. Não era tristeza. Nem felicidade.

Algo entre nostalgia e inquietação.

Um sentimento sem nome.

— Olha só quem resolveu aparecer!

A voz veio de dentro do resort, puxando Yuri de volta à realidade. Uma voz familiar.

Um garoto se aproximou usando o uniforme do resort aberto sobre uma camiseta da BYE-B. Piercings prateados brilhavam nas orelhas. Os olhos eram verdes.

Ele parecia mais alto.

Mas Yuri reconheceria aquela cara de pilantra em qualquer lugar.

— Felipe!

O aperto de mão virou abraço em segundos. A melancolia leve que Yuri carregava se dissolveu ali mesmo.

Felipe trabalhava no resort desde antes de Yuri ir pra faculdade. Agora, era praticamente o braço direito dos pais dele.

— Primeira vez que eu vejo o filho do dono chegando junto com os funcionários — brincou Felipe.

— Claro — Yuri respondeu. — Não sou maluco o suficiente pra te deixar cuidar disso sozinho. A gente ia falir em uma semana.

— Ainda bem — Felipe riu. — Por um segundo, achei que você tava tentando me sabotar. Foi você que convenceu seus pais a tirarem férias, né?

Só de lembrar o quanto insistiu, Yuri soltou um suspiro discreto.

— Com muito esforço. Só queria que eles não tivessem decidido tudo em cima da hora.

— Parabéns, hein? — Felipe riu alto, tirando um crachá do bolso. — Ferrou nós dois! É começo de temporada, então os primeiros dias vão ser uma loucura.

Ele entregou o crachá a Yuri.

Abaixo do logo do resort, só o nome dele.

Sem cargo.

— Usa isso pelos próximos quinze dias, ou os hóspedes vão te confundir com um turista — disse Felipe, pegando a mala. — Vou ajudar o Digão com os passeios hoje. Você fica no check-in. Ainda lembra como faz, né?

Yuri assentiu de leve.

Lembrava.

Era mais ou menos o que ele esperava.

Na verdade... era exatamente o que queria.

Algo movimentado.

Algo simples.

Perfeito para manter a cabeça ocupada.

No fundo, Yuri sempre gostou do caos do início da temporada. Afinal, ajudava na recepção desde os dezesseis.

— Já vou indo — disse Felipe, indo em direção à casa principal. — Vou deixar sua mala na casa dos seus pais. Boa sorte na recepção!

Como a decisão já tinha sido tomada por ele, Yuri seguiu direto para recepção.

Enquanto caminhava pela trilha emoldurada por árvores, a mudança no clima era clara. O ar parecia mais leve. A brisa do mar se misturava com o som das folhas balançando acima dele.

Então—

Passos.

Passos correndo.

O cascalho rangia atrás dele, cada vez mais perto.

— Adivinha quem é!

De repente, mãos cobriram seus olhos por trás. Yuri nem se assustou.

Ele reconhecia aquela voz.

Mesmo sem conseguir lembrar de quem era.

— Hã? Quem é? — perguntou, confuso.

— Você não entende o conceito de "adivinhar", não? — a voz respondeu na hora.

Yuri forçou a memória. Onde já tinha ouvido aquela voz?

Talvez fosse sua prima, Valéria. Ela estava sempre no resort quando ele ainda morava ali.

— Ah, sei lá! Como eu vou saber? É a Val?

— Nossa. Você esqueceu mesmo da minha voz? — a pessoa reclamou. — Você é um péssimo adivinhador.

As mãos se afastaram devagar. Quem quer que fosse, percebeu que não ia funcionar.

Yuri se virou.

Quando os olhos se acostumaram com a claridade, a primeira coisa que viu foram cabelos longos e brilhantes, azul-claro como o céu. Contrastavam com a pele morena. Estavam presos num coque alto, segurado por um scrunchie verde.

Pela segunda vez naquele dia—

Era um rosto que ele reconheceria em qualquer lugar.

O que fazia sentido.

Afinal, aquela era sua cidade natal.

— Ana?

— Tadaaa! — ela abriu os braços, fazendo uma pose exagerada, com um sorriso enorme.

Quatro anos tinham passado desde a última vez que Yuri e Ana se viram pessoalmente. Um ano mais velha, ela tinha se mudado para a capital para estudar estética antes mesmo de ele terminar o ensino médio.

— Finalmente — ela provocou. — Já tava achando que você não ia me reconhecer.

— Bom... o cabelo azul é novidade — Yuri respondeu.

Não só a cor, mas o comprimento.

Durante todo o fundamental e o ensino médio, havia algo que nunca mudava nela.

Seu cabelo curto e preto.

— Maneiro, né? — ela disse, toda orgulhosa. — Venho pintando desde o ano passado.

Dava pra ver que ela gostava do novo visual.

E, mesmo sendo bem diferente do que ele lembrava, não ficava estranho.

Na verdade... combinava com ela.

— E olha isso! — ela apontou animada pro logo do resort bordado no jaleco. — Também comecei a trabalhar aqui como massagista no ano passado, logo depois de me formar! Agora somos colegas de trabalho.

Mas o que chamou a atenção de Yuri não foi o logo.

Foi a cicatriz.

Logo acima da gola, em forma de cruz.

Uma cicatriz que ele conhecia bem.

Imediatamente, memórias da infância vieram à tona.

— Ei, meus olhos ficam aqui em cima, sabia? — Ana brincou.

O pânico veio antes do pensamento.

Yuri percebeu tarde demais pra onde estava olhando esse tempo todo.

— O quê?! Não! Eu só tava olhando pro seu... quer dizer... a marca! No seu peito!

Ana riu alto, obviamente apenas zombando de Yuri. Ela se esforçava para se acalmar enquanto as lágrimas escorriam de tanto rir.

— Eu sei, eu sei. Relaxa! — disse, colocando a mão no ombro dele. — É a cicatriz, né?

Yuri finalmente relaxou.

— Me ofereci pra participar de um estudo sobre uma nova técnica de transplante há pouco mais de um ano — explicou ela, apontando para o centro da cicatriz. — A recuperação foi longa, mas agora...

Ela sorriu, orgulhosa.

— ...estou oficialmente curada.

Desde que nasceu, Ana conviveu com uma cardiopatia congênita grave.

Era assim que Yuri sempre se lembrava dela.

Ouvindo isso, a surpresa se manifestou primeiro, e o pensamento surgiu apenas em terceiro lugar, desta vez.

Antes dele—

Algo muito mais leve.

Como se o ar finalmente tivesse voltado pros pulmões dele.

— Ana... finalmente... — ele murmurou, com um sorriso largo se abrindo sem perceber.

Ana percebeu.

Viu o sorriso dele.

E soube que aquele era o momento perfeito para continuar as boas notícias.

— E o melhor de tudo... — ela disse, animada. — Agora eu posso ter minha própria lista de sonhos!

Mas a simples menção a uma lista de sonhos fez o sorriso de Yuri vacilar.

Quando criança, Yuri tinha uma lista enorme de tudo o que queria ser quando crescesse.

Hoje, ele só conseguia enxergar como uma lista de fracassos.

Inventor.

Pintor.

Astronauta.

Cantor.

Diretor de cinema.

Professor.

Bombeiro.

Escritor.

Piloto.

Esses eram apenas alguns dos sonhos que já tinham passado por aquela lista. Sem contar as coisas que ele queria ter, os lugares que sonhava conhecer, e tudo o que planejava fazer um dia.

— Quantos itens da sua você já conseguiu realizar? — perguntou Ana, empolgada, sem perceber a mudança no rosto dele.

— Ah... na verdade... — Yuri hesitou por um instante.

— Eu só... — ele procurou a palavra certa.

Mas a realidade escapou antes que ele a encontrasse.

— Eu desisti.

A expressão de Ana ficou confusa.

— Ué, mas por quê?

A confusão no rosto dela fez Yuri lembrar imediatamente do motivo pelo qual Ana conhecia tão bem sua lista de sonhos.

No primário, os dois já eram muito próximos.

Ela sempre ficava por perto enquanto ele escrevia a lista.

Observava em silêncio.

Ouvia com atenção enquanto ele explicava, cheio de empolgação, como pretendia realizar cada um daqueles sonhos.

E estava sempre junto quando Yuri brincava de faz de conta.

Ele nunca a deixava de fora.

Sempre a incluía enquanto encenavam aqueles futuros imaginários.

— Yuri! Quantas vezes mais eu vou ter que repetir isso? — essa frase quase sempre interrompia as brincadeiras. — A Aninha tá doente. Você não pode ficar arrastando ela pra lá e pra cá!

Era o que alguém sempre dizia.

Um professor.

Ou algum outro adulto.

E junto da frase, vinha a cena que Yuri também lembrava muito bem.

Por causa do problema cardíaco, Ana quase sempre ficava abatida.

Mesmo quando parecia se divertir, logo ficava ofegante.

Com dores no peito.

Pálida.

Ainda assim...

Ela parecia mais feliz ali, participando, do que quando era deixada de fora.

Pelo menos naquela época.

— Já passou da hora de você crescer e ser um pouquinho mais responsável, não acha? — era essa a frase que mais ecoava na memória de Yuri.

E talvez...

Talvez aquela pessoa estivesse certa.

Essa foi uma das razões pelas quais Yuri decidiu deixar seus sonhos para trás e focar na realidade.

Agora, ele acreditava que o tempo para tudo aquilo já tinha passado.

— Eu... cresci — Yuri respondeu, olhando para Ana.

Com a resposta, mesmo sendo exatamente o que ele queria dizer, Yuri não conseguiu esconder a própria decepção.

Ana percebeu.

E Yuri também percebeu.

Mas, enquanto ele se preparava para mais perguntas — daquelas que ele definitivamente não queria responder —, o tom de Ana quebrou completamente essa expectativa.

— Você? Cresceu? — ela perguntou, com uma expressão de deboche exagerada.

— ...Sim? — Yuri respondeu, confuso, tentando entender onde ela queria chegar.

— Ui, olha ele, todo crescido! — disse Ana, imitando uma criança. Juntou as mãos, fechou os olhos e fez um biquinho dramático. — Daqui a pouco já vai estar casado, cheio de filhinhos, né?

"Casado."

Só essa palavra já puxou Yuri para outras lembranças.

Mais recentes.

Caminhando pelos corredores do campus.

Olhos verdes.

Cabelo castanho.

Brincos de argola dourados.

Era isso que a simples menção de casamento trazia à mente dele.

Mas Yuri tratou de espantar aquela lembrança quase imediatamente.

Agora, aquilo também devia ser só mais um dos sonhos que ele precisava deixar para trás.

E, mesmo que ele estivesse prestes a se perder nesse pensamento, seria interrompido de qualquer jeito.

Um toque musical repetitivo veio do bolso do jaleco de Ana.

O celular.

Ela o tirou, desligou o som — um alarme — e encarou a tela por um instante.

— Puts... vamos ter que adiar esse papo de vida adulta — ela disse, já guardando o celular de volta no bolso. — Já tenho alguns clientes indo pro spa agora.

Ela se virou, já acenando para Yuri com um sorriso.

— A gente se fala depois, beleza? E... bom te ver de novo, Yuri!

Ana seguiu em direção ao spa, deixando Yuri sozinho mais uma vez.

Ele a observou enquanto ela corria, cheia de energia.

— É bom te ver bem também, Ana... — murmurou para si mesmo, com um sorriso aliviado.

Só então, finalmente, seguiu para a recepção.

Já eram sete da noite.

— Boa noite. Tenham uma ótima estadia! — Yuri se despediu dos últimos hóspedes após o check-in.

Como aquele tinha sido o último atendimento do dia, ele decidiu fechar a recepção e seguir para a casa dos pais.

Desfazer a mala.

Tomar um banho.

Arrumar o quarto para os dias que viriam.

Era o plano.

— Droga de caixas... fiquem aí! — a voz veio do estacionamento.

Yuri olhou na direção do som.

Era Ana, reclamando sozinha enquanto tentava equilibrar três caixas de chá na garupa de uma scooter elétrica.

No caminho, Yuri se aproximou de Ana e a cumprimentou de forma casual.

— E aí, Ana. Boa noite.

Ela se virou devagar.

— ...tá tudo certo? — Yuri perguntou, com cuidado.

O olhar que ela lançou na direção dele era assustador.

Carrancudo.

Cheio de ódio acumulado.

— Eu vou tocar fogo nessa porcaria! — ela disparou, sem nenhum filtro.

Já fazia um bom tempo que ela estava brigando com aquelas caixas.

— Se essas caixas de merda não ficarem no lugar... — Ana continuou resmungando.

— Só isso? — a falta de seriedade da situação chegava a ser engraçada.

— ...Quer ajuda? — ele completou, ainda com uma expressão meio cansada.

— Sério? Quero! Obrigada! — ela respondeu na hora.

A mudança foi instantânea.

De rabugenta para fofa.

Como uma criança birrenta que acabou de conseguir exatamente o que queria.

No fundo, Yuri se divertiu com o comportamento bobo de Ana.

Parecia um bom sinal. Um jeito estranho, mas sincero, de reacender a velha amizade.

Ela empilhou as três caixas, uma sobre a outra.

— Preciso levar isso lá pro centrinho — disse, enquanto colocava tudo nos braços de Yuri.

Ana subiu na scooter e deu a partida.

Yuri ficou observando.

E assim que entendeu o que ela estava sugerindo, quase se arrependeu de ter oferecido ajuda.

— Sobe na garupa. De costas pra mim — ela disse, com a maior naturalidade. — Rapidinho a gente chega lá.

Mesmo preocupado, Yuri fez exatamente como ela pediu, sentando na garupa, costas com costas com Ana.

Antes que tivesse tempo de se preparar, Ana arrancou com a scooter em direção ao portão do resort. Fez uma curva fechada e entrou direto na rodovia, seguindo para a cidade.

A velocidade era muito maior do que a que Yuri esperava.

Ele lutava contra cada curva que Ana fazia, tentando ao mesmo tempo se manter na scooter e impedir que as caixas escorregassem do seu colo.

— Devagar! — ele gritou, pedindo pra ela reduzir.

Mas Ana não se importou.

Pelo contrário.

Ela parecia estar se divertindo.

— Segura firme! — ela respondeu, acelerando ainda mais.

— Me segurar em quê, Ana?! Nas caixas?! — Yuri rebateu, quase perdendo o equilíbrio.

— Na mão de Deus! — Ana respondeu, gargalhando.

A scooter atravessou a ponte que levava ao centrinho, onde os turistas costumavam passar as noites de férias depois de longos dias de praia.

Depois de seguir com um pouco mais de cuidado por ruas menos movimentadas, Ana parou a scooter em frente a um terreno espremido entre uma mercearia fechada e uma casa de esquina.

Assim que ela estacionou por completo, Yuri praticamente saltou da garupa.

— Eu... eu devia processar quem inventou essa droga de scooter!

Ana continuou rindo enquanto descia e abria o pequeno baú na frente do guidão, tirando um molho de chaves de dentro.

— Qual é, relaxa — disse ela, caminhando até um portão improvisado, feito de telhas de aço galvanizado. — Um pouco de adrenalina faz bem pro coração.

Ainda meio irritado, Yuri olhou ao redor. E, aos poucos, o incômodo foi dando lugar à curiosidade.

— Tá... e onde exatamente a gente tá? — ele se aproximou de Ana, que acabava de destrancar o portão. — E o que tem nessas caixas?

— Já falei — Ana respondeu, empurrando o portão. Não abriu tudo, só o suficiente pra passarem. — Merda.

— ...Hã?

— Adubo — ela completou, entrando. — Traz pra mim, por favor.

Yuri entrou logo atrás dela, carregando as caixas.

— E pra que você precisa de adu—

A pergunta morreu no meio do caminho.

Assim que ele atravessou o portão o suficiente para enxergar o interior do terreno.

No fundo do terreno, para onde Ana caminhava, um pequeno galpão improvisado ocupava o canto esquerdo.

No centro, ao lado dele, havia uma mesa simples. Sobre ela, alguns vasos de barro vazios empilhados, ao lado de ramos com botões ainda fechados. Abaixo, caixas de madeira guardam pequenos copinhos plásticos — daqueles de café — cheios de terra, de onde despontavam folhas tímidas.

E, à direita, alguns ramos pequenos e médios brotavam direto do chão, em uma área delimitada por estacas fincadas na terra.

— Bem-vindo ao jardim dos meus sonhos — Ana disse a Yuri. — Pode colocar as caixas na mesa.

Yuri caminhou quase no automático, seguindo na mesma direção que ela.

— Jardim?

Ele a alcançou e colocou as três caixas sobre a mesa, como ela havia pedido.

— Em progresso — Ana respondeu, dando de ombros. — O terreno é da minha vó. Mas ela me deixou usar por enquanto.

Na mesa, Ana abriu uma das caixas e tirou de dentro um saco de solo misturado com adubo.

Com uma pá pequena, ela rasgou o saco e começou a preencher um dos vasos vazios com a terra.

— Mas, quando eu puder, quero comprar ele e usar como jardim oficial pra minha floricultura.

Ouvindo isso, uma lembrança da infância surgiu na hora na cabeça de Yuri.

Uma que ele tinha certeza que não estava confundindo.

— Espera... — ele disse, franzindo a testa. — Você não odiava flores quando a gente era pequeno?

— Na verdade... não — Ana respondeu, mais contida. O tom dela ficou suave, quase frágil. — Eu odiava amar flores.

Ela continuou mexendo na terra enquanto falava.

— Quando eu era criança, passava muito tempo em hospitais. E sempre que eu ficava internada, as pessoas me levavam flores.

Yuri ouviu em silêncio, tentando acompanhar o que ela queria dizer.

— Com o tempo, não demorou muito pra eu ligar os pontos... — o tom dela ficou mais baixo, mais melancólico.

Ana fez uma breve pausa.

— Na ala de pacientes graves, era comum eu acordar no meio da noite e ver a cama ao lado vazia. Só as flores ainda estavam lá, na cabeceira.

Ela engoliu em seco, mas continuou.

— Do corredor vinham soluços... choro... uma confusão rápida. E depois disso... silêncio.

— No fim, só as flores ficavam. Murchando aos poucos. Até outra pessoa ocupar aquele lugar.

— "Quanto tempo até eu deixar minhas flores pra trás?"

Era só nisso que eu pensava depois de um tempo. Mas, durante a cirurgia, alguma coisa mudou.

— Eu não sei se foi a anestesia ou outra coisa qualquer — ela continuou. — Mas naquele dia eu tive um sonho... ou talvez algo mais que um sonho.

— Eu estava em um jardim enorme, cercada de lírios brancos até onde a vista alcançava.

— Naquele momento, eu não sentia nenhum ressentimento. Eu estava feliz. Mais feliz do que nunca — ela sorriu de leve enquanto falava. — Tudo o que eu sentia era vontade de continuar feliz assim, pra sempre.

— Quando eu acordei, já estava no quarto da enfermaria — Ana disse, desviando finalmente o olhar do vaso e voltando a atenção para Yuri.

Ele continuava ali, em silêncio.

O que ele poderia dizer, afinal? Até poucos minutos atrás, Yuri nem fazia ideia de que Ana carregava sentimentos assim.

— ...E então, eu me lembrei de você.

O silêncio de Yuri ficou ainda mais evidente.

Ou talvez fosse exatamente o contrário — difícil dizer.

A expressão confusa dele logo deu lugar à surpresa.

Por que, em um momento como aquele, ela teria pensado justamente nele?

— Mesmo depois de os médicos dizerem que tinha dado tudo certo, ainda levou um tempo até eu realmente acreditar — disse Ana, segurando o vaso em que estava trabalhando. — Mas, quando eu finalmente me acostumei com a ideia... percebi que estava livre. Livre pra viver.

Com poucos passos, ela ficou frente a frente com Yuri.

— Eu finalmente podia ter meus próprios sonhos. Sem medo de eles serem interrompidos por internações, ou... —

Mesmo sem dizer uma palavra há um bom tempo, tudo o que Ana falava desde que chegaram ao jardim parecia rasgar Yuri por dentro.

Ele sempre se preocupou com ela. Sempre.

Durante toda a infância e adolescência, Ana foi sua melhor amiga.

Então como ele nunca tinha pensado que ela pudesse se sentir assim?

Claro que ela teria sentimentos desse tipo.

Outro peso se acumulou dentro dele, se somando à visão negativa que tinha de si mesmo. A mesma que o fez desistir dos próprios sonhos.

"Como sempre..." — pensou.

" O mesmo egoísmo de sempre."

As luzes ao redor começaram a se alongar, virando estrelas borradas, conforme a visão de Yuri desfocava.

Lágrimas se juntavam nos olhos, surgindo sem que ele percebesse.

— Eu não sei exatamente o que aconteceu — Ana continuou. — Mas, se não fosse por você, eu nem saberia como...

Ela respirou fundo antes de completar:

— Foi você quem me ensinou a sonhar.

As lágrimas finalmente transbordaram dos olhos de Yuri.

As palavras de Ana não foram a única causa.

Foram o gatilho.

Como um anzol puxando de volta à superfície tudo o que ele tinha se esforçado tanto para enterrar nos últimos meses.

Tudo aquilo que culminava naquele dia.

— Então... eu quero que você cuide disso.

Ana falou enquanto pressionava com cuidado o vaso — com um pequeno botão recém-plantado — contra o peito de Yuri.

— Eu vou deixar essa parte do meu sonho com você — Ana disse, sorrindo de forma gentil, em contraste com os soluços de Yuri. — Até você conseguir sonhar os seus próprios sonhos de novo, você pode fazer parte do meu.

Yuri recebeu o vaso em suas mãos.

A visão dele já estava completamente embaçada pelas lágrimas.

Nenhuma palavra conseguia encontrar um caminho coerente até a sua boca.

Instintivamente, Yuri abraçou o vaso, como se aquilo o mantivesse preso a uma realidade um pouco mais suportável do que a que ele vinha carregando.

Mesmo pequeno, o vaso parecia grande em suas mãos.

Quase como se fosse o pequeno Yuri — aquele que escrevia listas de sonhos e brincava com Ana — quem o estivesse segurando.

— Obrigado, Ana... — foram as primeiras palavras que conseguiram sair.

O abraço ao vaso se tornou ainda mais apertado.

Mais trêmulo.

— Eu vou.

Ana deu espaço a Yuri e voltou ao que tinha ido fazer no jardim, sempre puxando conversa, pedindo ajuda aqui e ali, tentando animá-lo do jeito dela. Quarenta minutos depois, os dois já estavam novamente no portão do resort.

— Valeu pela ajuda, Yuri — Ana se despediu, já dando partida na scooter.— Até amanhã!

Yuri acenou, observando enquanto ela se afastava pela rodovia.

Mesmo com alguns hóspedes voltando para o resort depois de aproveitarem a noite na cidade, o silêncio ainda conseguia se impor.

Aos poucos, Yuri voltou a caminhar pela trilha cercada por árvores. Dessa vez, carregava nas mãos o vaso que Ana havia lhe dado.

Mas a caminhada tinha um gosto diferente.

Mais amargo.

Se pela manhã a decisão de desistir tinha parecido confortável, agora, depois do tempo com Ana, tudo soava errado.

Por que eu não conseguia simplesmente ficar feliz por ela?

Esse pensamento se repetia na mente dele.

Não era como se ele não estivesse feliz. Ele estava.

Mas, ao mesmo tempo, parecia que os seis meses em que se preparou para tomar aquela decisão tinham perdido completamente o sentido em menos de uma hora.

Era tão diferente de como ele se sentia naquela manhã.

Por que agora doía tanto?

Ele tinha certeza do que estava fazendo.

Não queria mais ser um peso para os pais.

Mas a conversa com Ana deixou algo claro.

Desistir tinha se tornado insuportavelmente desconfortável.

Já na casa dos pais, Yuri subiu as escadas até o segundo andar, onde ficava seu quarto. Nem mesmo conseguiu se apegar à sensação nostálgica que aquele lugar deveria trazer.

— Eu te invejo, Ana... — murmurou.

— Eu continuo sendo egoísta — disse para si mesmo, ao entrar no quarto.

A mala estava sobre a cama.

Os pôsteres ainda ocupavam as paredes.

Alguns brinquedos antigos continuavam acumulando poeira em cima do guarda-roupa.

Tudo aquilo só fazia o aperto dentro dele crescer.

Pela segunda vez naquele dia, seus olhos se encheram de lágrimas.

Yuri colocou o vaso sobre a cômoda. Ao encará-lo, a conversa com Ana voltou inteira à sua mente, pesando no corpo dele como algo impossível de ignorar.

Lágrimas silenciosas pingaram sobre o pequeno botão de lírio enquanto ele se apoiava na cômoda, curvado.

Sozinho, não fazia sentido tentar negar ou mentir.

— Eu queria ter o mesmo que você, Ana... — soluços cortaram a frase. — Eu também...

A voz falhou.

— Eu também quero sonhar com lírios.

Dê um incentivo ao autor!

Dê um incentivo ao autor!
Compartilhar:
Índice Próximo

Comentários 0 tópico(s)

Entre para participar da discussão.
Ninguém comentou ainda. Seja o primeiro!
Lendo agora
Azul é a cor mais quente