Eu também quero sonhar com lírios! — O peso de uma promessa quebrada
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O peso de uma promessa quebrada

Por MooLucio 10 min 18 Mar, 2026

Era por volta de junho.

Naquela noite, logo após chegar da faculdade, meu celular vibrou no bolso. O nome da minha mãe iluminou a tela.

— Oi, mãe — eu disse, colocando no viva-voz enquanto tirava os sapatos.

— Oi, filho — ela respondeu, com aquela voz calorosa e familiar de sempre. — Como estão indo as férias?

— Não diria que estão sendo relaxantes. Mas vou sobreviver.

— Não vá se esforçar muito, hein? — disse ela. — Você vai conseguir vir visitar?

Hesitei, encarando o corredor silencioso do meu apartamento.

— Acho que não, mãe.

— Que maldade! — ela exclamou, claramente fingindo indignação. — Você prometeu!

— Eu sei. Mas eu te falei que ia fazer aquelas aulas de música, lembra? — argumentei. — As férias são o único momento que tenho para correr atrás dessas coisas.

Desde o meu primeiro ano na faculdade, eu preenchia todas as férias com cursos, e aulas sobre qualquer tema que me interessasse. Eu ainda visitava meus pais, é claro — mas só nos feriados prolongados.

— Eu sei, eu sei — disse ela, o tom de voz suavizando. — Mas não consegue vir nem por um fim de semana em julho?

— Vou tentar. Vou dar um jeito.

— É bom mesmo. Seu pai e eu estamos com saudade.

Por um momento, a voz dela perdeu o tom brincalhão.

— Também estou com saudade. Como está o pai?

— Do mesmo jeito de sempre quando começa a temporada de férias.

Os primeiros dias da temporada, mesmo no inverno, costumavam ser bem pesados para todos nós.

— Um pouco mais cansado que o normal, já que ele ainda não se acostumou com "certo alguém" dando o cano nele desde o ano passado — ela provocou.

Eu já sabia que seria assim. No início de cada temporada, eu costumava ajudá-los com os afazeres ou ficava na recepção enquanto eles resolviam outras pendências. Mas agora, como eu não estava lá, imaginei que estivessem sobrecarregados. O único motivo de eu me sentir confortável em ficar longe era que eles mesmos tinham sugerido que eu aproveitasse as férias para focar nos meus interesses.

— É... Foi mal.

Mesmo assim, eu ainda me sentia culpado. Mas, antes que pudéssemos continuar a conversa, um bipe ecoou no telefone.

— Ah, é o seu pai. Preciso desligar. Beijo!

Com isso, ela desligou para atender a chamada dele. Deixado no silêncio repentino, eu me forcei a levantar da cama e fui para o banho. Depois, improvisei qualquer coisa para o jantar e coloquei um filme aleatório. Era um mau hábito meu — algo que eu fazia sempre que não estava com cabeça para estudar ou ser produtivo— e que sempre me deixava com aquele sentimento de arrependimento depois.

Foi só mais tarde, quando o filme acabou, que lembrei de checar o celular. Havia cinco chamadas perdidas da minha mãe. Era comum ela esquecer as coisas e ligar várias vezes, então, na hora, não dei muita importância. Ainda assim, achei melhor retornar.

— Oi, mãe, o que foi? — perguntei assim que ela atendeu.

— Yuri, é a Valéria! — a voz da minha prima respondeu. — Tô com a tia Flor no hospital.

— Hospital? O que aconteceu?

— É o seu pai... Ele sofreu um acidente de carro.

As palavras dela quase fizeram meu coração parar.

Não lembro exatamente como ela explicou o resto; tudo se tornou um borrão por conta do pânico. A única coisa que ficou gravada foi que meu pai tinha dormido ao volante e batido em uma árvore.

Por sorte, ele não se feriu gravemente, mas iria precisar passar uns dias em observação.

Tentei pegar um ônibus para Icugimirê naquela mesma noite, mas não tinha nenhum.

Na manhã seguinte, minha mãe ligou e me convenceu a não ir. Disse que meu pai estava bem e que provavelmente receberia alta no dia seguinte. Ela insistiu que não havia necessidade de eu correr para lá — que eu deveria ficar e terminar as aulas de música que já tinha pago.

Era uma ótima notícia, com certeza. Mas, depois daquilo, tudo mudou.

Pelo resto das férias, passei cada segundo acordado me preocupando com eles. Sufocando eles com perguntas sobre saúde, e me culpando por cada detalhe.

Se eu tivesse voltado para ajudar na temporada, nada disso teria acontecido. Mas eu estava tão focado em mim mesmo que só segui o que eles disseram e fiquei fazendo o que eu queria.

É claro que eles me diriam para aproveitar as férias. Que pais não diriam? Mas, no fim, a escolha foi minha. Eu sabia que eles precisavam de ajuda. E, ainda assim, deixei que se exaurissem ao ponto de meu pai quase perder a vida.

A culpa era minha.

Naquele ponto, eu não podia simplesmente largar tudo e mudar minha vida num capricho. Se fizesse isso, todos os sacrifícios que eles fizeram por mim teriam sido em vão.

Foi quando decidi estabelecer um prazo final. Ao mesmo tempo, praticamente forcei meus pais a aceitarem tirar férias eles mesmos no fim do ano.

Prometi que estaria lá nas férias de verão para cuidar de tudo enquanto eles viajassem. E fiz uma promessa a mim mesmo: se, até o fim deste ano letivo, eu não conseguisse alcançar pelo menos um dos sonhos que vinha perseguindo, eu iria desistir de todos eles.

Eu pararia e focaria apenas em ajudar meus pais.

— E foi exatamente isso o que aconteceu — disse Yuri para Ana, enquanto terminavam de dobrar os últimos lençóis limpos.

Já eram oito da noite. Enquanto esperavam a secadora terminar, Ana aproveitou para tomar um banho. Ela tinha acabado de sair, e fez questão de agradecer Yuri novamente pelo presente que já havia aberto. Ela o usava agora — um colar delicado com um pequeno pingente de flor prateada que brilhava contra sua pele.

Ana estava sentada no balcão, entregando os lençóis e toalhas dobrada para Yuri guardar enquanto colocavam o papo em dia. Eventualmente, Yuri se sentiu confortável o suficiente para se abrir; era óbvio que ela percebia que ele estava perdido em seus próprios pensamentos.

— Entendi... — Ana refletiu em voz baixa após ouvir a história. — Então foi isso que aconteceu?

Ela entregou outro lençol dobrado, e ele o colocou exatamente onde ela havia mostrado.

— É. Meio idiota, né? — ele perguntou, a voz sumindo num tom tímido.

— Não. Eu entendo o seu lado — a voz dela soou surpreendentemente suave.

— Sério? — Yuri piscou, pego de surpresa pela falta de julgamento dela.

— É. Quer dizer... é um pouco idiota, sim — ela provocou, mas sua expressão continuou gentil. — Mas eu era do mesmo jeito. Quando eu ainda estava doente, sempre achava que correr atrás de um sonho só ia fazer meus pais sentirem pena de mim. Além de me fazer sentir como um peso pra eles.

Yuri empilhou as últimas toalhas, ouvindo atentamente enquanto Ana continuava.

— Só para descobrir, depois da cirurgia, que eu era a única que pensava assim — disse Ana, apontando primeiro para sua cicatriz e depois para Yuri. — Aposto que é o mesmo com seus pais. Eles com certeza não te culpam por nada disso.

— Talvez... — Yuri respondeu, o olhar perdido na parede, a voz carregada de dúvida. — Mas isso não muda muita coisa.

Ana estudou o rosto dele, sua curiosidade aguçada.

— Porque eu me culpo.

Ele ficou perdido em pensamentos por um momento após dizer aquilo em voz alta — se por vergonha ou pela tristeza persistente, ele não tinha certeza. O silêncio durou até Ana dar um cutucão, trazendo ele de volta à realidade.

— Credo! Relaxa um pouco! — Ela riu, dissipando instantaneamente a tensão pesada. — Quem disse que as coisas precisam mudar?

Mais uma vez, Yuri foi pego de surpresa pela reação dela. Ana pulou do balcão.

— Eles confiaram em você o suficiente para te deixar cuidando de todo o resort, não confiaram? — ela perguntou. Não esperou que ele respondesse antes de continuar. — E isso foi depois do acidente. Então, se eles confiam em você agora, o que te faz pensar que não confiavam antes?

Nos últimos meses, Yuri vinha se tornando mais rígido consigo mesmo, se preparando para não questionar sua decisão quando o prazo finalmente chegasse. Instintivamente, ele deu de ombros em uma tentativa falha de desviar da pergunta.

— O que eu estou dizendo é que, talvez, você não precise mudar nada para atender às expectativas deles — ela disse, passando por ele. Ela parou diante do armário de roupas de cama e deu uma batidinha suave na porta que ele havia acabado de fechar. — E, ainda assim, ajudar eles.

Ainda tentando descartar mentalmente as palavras dela, Yuri ainda tentou se justificar.

— É diferente. Foi só o que eu prometi pra eles.

Ana pensou por um segundo antes de um sorriso se espalhar por seu rosto.

— Vamos fazer outra promessa, então. — Ela levantou o punho fechado, com o dedo mindinho estendido para ele. — Já que nós dois sabemos que você não vai quebrar ela. Né?

Yuri soltou uma risada surpresa, espantado com aquele comportamento infantil, mas intrigado mesmo assim.

— Que promessa? — ele perguntou.

— Vai logo. — Ela balançou o mindinho, chamando Yuri. — Não confia em mim?

Divertido com a provocação amigável, ele entrelaçou seu mindinho ao dela, soltando um pequeno suspiro de rendição.

— Assim está melhor. — O sorriso dela aumentou ainda mais. — Agora, você não pode quebrar essa também, ok?

— Tá bom. Então, o que é? — perguntou ele, cativado pelo brilho dela.

— Você promete ser menos teimoso de agora em diante. — Ela olhou diretamente nos olhos de Yuri, apertando o mindinho ainda mais contra o dele.

Yuri a encarou de volta, cerrando os olhos e fingindo estar ofendido por um momento. Mesmo que tentasse, ele não conseguia simplesmente ignorar como mágica tudo o que ela disse. E o mais importante: ele lembrou do botão de lírio que ela lhe deu — um pedaço do próprio sonho dela — e pediu que ele cuidasse.

Ana não o interrogou uma única vez desde que se reencontraram. Em vez disso, ela apenas ouviu o que ele quis compartilhar. Mesmo assim, ofereceu conforto quando percebeu que algo estava errado, esperando até que ele estivesse pronto para se abrir por conta própria.

Yuri não pôde deixar de comparar os dois momentos. Assim como na primeira vez, no fundo, ele percebeu que aquilo era algo que ele queria aceitar. Mas, ao contrário de antes, o desconforto persistente que sentia pareceu se dissipar.

— Tudo bem, então. — Uma risada gentil escapou dele. — Eu prometo que vou tentar.

Ambos sorriram, balançando os mindinhos entrelaçados como um aperto de mão formal. Depois disso, fecharam a lavanderia e caminharam juntos em direção ao estacionamento, onde a scooter dela estava parada.

— E quanto à sua crush? Você vai ficar bem? — ela perguntou, a voz ainda carregada com aquele tom provocador.

— Acho que sim. Quer dizer... ela sabe como eu me sinto sobre essa coisa toda do resort.

Ana o cutucou com o cotovelo.

— Então você não nega o crush, hein? — Ela deu uma risadinha. — E ela sabe como você se sente em relação a ela também?

Yuri olhou para ela de canto, percebendo que era inútil continuar escondendo agora.

— É, tá bom, eu tinha um crush nela! Tá? E não, ela não sabia — admitiu ele com um suspiro pesado.

— Que? Por que não? — perguntou ela, soando genuinamente decepcionada.

— Eu não sei... tipo... eu só não sei, sabe? — ele gaguejou, incapaz de encontrar uma resposta clara.

— O quê? Não! Eu não sei. Você pelo menos contou para ela? — ela exclamou, o tom cheio de indignação.

— Não... — Ele entregou a mochila para Ana assim que chegaram à scooter. — Além do mais, já superei isso. Somos só bons amigos agora.

Ana pegou a mochila e a colocou nas costas.

— Não sei não, amigão. Talvez ela tenha um crush em você. — Ela ajeitou o cabelo e subiu na scooter. — Ela te chamou para sair com ela, não chamou?

— Sim. Mas como amigos! — ele explicou. — Se eu te chamasse para sair, isso ia significar que eu tenho um crush em você?

— E você tem? — Ana perguntou, uma expressão sarcástica dançando em seu rosto.

— Não, Ana! Esse é justamente o ponto! — ele explodiu, o rosto ficando vermelho como um tomate.

Ana deu risada enquanto manobrava a scooter, preparando-se para partir.

— Se você diz... — Ela pausou por um momento antes de sair do resort. — Só tô dizendo que, embora eu saiba o que você está tentando fazer, nem tudo precisa ficar no passado.

Ela mandou alguns beijinhos no ar para ele enquanto a scooter começava a rodar em direção à saída.

— Tchauzinho! Obrigada pela ajuda. Boa noite!

Yuri acenou para ela até que desaparecesse na rodovia. Ele sentou nos degraus na porta de sua casa por um momento, aproveitando a brisa fresca da noite quente de verão antes de entrar.

"Eu deveria explicar para a Emili o que aconteceu", pensou. Parecia a coisa mais sensata a se fazer. Mas, assim que tirou o celular do bolso, uma notificação na tela de bloqueio o pegou de surpresa.

"Emili: Vc tá livre amanhã de manhã? - 20:26"

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