O segundo dia de Yuri no resort foi tão agitado quanto o primeiro. — Mas de um jeito diferente.
Ele passou a maior parte do dia no centro da cidade resolvendo pendências.
Só agora, quase às 19h, ele finalmente conseguiu se sentar por alguns minutos.
Com esse tempo livre, Yuri usa o acesso ao sistema no computador da recepção para procurar o número da Ana.
— E... achei! — ele comemora, baixinho.
Ele salva o número no celular e manda uma mensagem.
"Oi, Ana. Aqui é o Yuri"
"Foi mal"
"Peguei seu número novo no sistema 😅"
Depois de alguns segundos, ela responde.
"Oi"
"De boa 😆"
"E aí?"
Yuri continua.
"Você ainda tá no spa?"
"Eu queria te entregar uma coisa"
Ana responde, mais rápido que antes.
"Tô sim"
"O que é?"
Yuri digita e apaga a mensagem algumas vezes, tentando achar uma forma menos vergonhosa de dizer aquilo, só para acabar voltando às primeiras palavras.
"Um presente, por ontem"
"Nada muito chique"
"Aaaawn" — ela responde quase na hora.
"Fofo"
"Vc tá na recepção, né? Tô indo aí"
Yuri começa a digitar a resposta, totalmente focado no celular.
"Eu posso ir aí no spa, se for mais fácil pra v—"
Mas ele é interrompido antes de terminar.
— Olá, boa noite. Eu gostaria de falar com o Yuri, ele está? — uma voz feminina chama do outro lado do balcão da recepção.
Um pouco apressado, e sem graça por estar tão distraído, Yuri guarda o celular rapidamente.
— Ah... desculpa. Boa noite! — ele se levanta, virando-se para a hóspede.
— Eu sou o Yuri, em que posso—
Ele se interrompe no meio da frase ao reconhecê-la de imediato. — Hã?
Olhos verdes. Cabelo castanho. Brincos de argola dourados.
Exatamente como ele a via andando pelos corredores do campus nos últimos três anos.
— Surpresa! — ela exclama com um sorriso enorme, rindo por ter conseguido pegá-lo desprevenido.
— O que você tá fazendo aqui, Emili? — ele pergunta, genuinamente confuso.
— Eu não te contei que o grupo de teatro e eu íamos apresentar "Um Conto de Natal" numa cidadezinha, a pedido da prefeitura? — ela responde com outra pergunta.
Tudo finalmente se encaixa para Yuri.
— E é AQUI?! — ele enfatiza.
— É. — ela confirma, cruzando os braços sobre o balcão. — Como você tinha comentado que seus pais têm um resort aqui, eu resolvi dar uma olhada.
Yuri se lembra de ter mencionado o resort de forma casual em algumas conversas ao longo dos anos.
— Ué? — ela pergunta, analisando o rosto dele. — Tava torcendo pra ter um descanso da sua melhor amiga, é? — provoca.
— O quê? Não! — ele sorri. — Você só me pegou de surpresa, só isso.
O sorriso dele cresce agora que o clima estranho inicial começa a se dissipar.
— Você tá fazendo check-in agora? — ele pergunta.
— Não. Eu fiz de manhã, com aquele cara do cabelo ondulado. — ela descreve o Felipe, que estava cuidando dos check-ins mais cedo. — Eu perguntei de você, e ele disse que você tinha saído pra resolver umas coisas.
O vestido leve de Emili quase não dá conta de conter seus peitos quando ela se inclina desleixada sobre o balcão, animada e sorrindo.
— Então eu voltei agora pra te convidar. — ela diz, enquanto Yuri tenta ao máximo não olhar para o decote dela. — Vamos na abertura do festival de Natal hoje à noite?
— Hã? O festival já começa hoje? — mesmo sendo da cidade, ele tinha esquecido completamente.
— Começa sim. Eles vão acender as luzes e vai ter apresentações ao vivo também — ela explica, com a voz cheia de expectativa. — E aí?
Ela o encara, esperando a resposta. Mas o rosto de Yuri mostra uma preocupação maior do que ela imaginava.
— Bom... só se você não estiver ocupado com o trabalho. — ela acrescenta, tentando suavizar o clima.
— ... Desculpa. Ainda tem gente do turno da tarde trabalhando. — ele explica, com um sorriso meio forçado. — Eu tenho que ficar aqui pelo menos até eles baterem o ponto. Caso algum deles precise de ajuda em alguma coisa.
— Não, quer dizer... tudo bem. Eu esqueci disso. — ela também força um sorriso.
Tentando aliviar a situação, Yuri mantém a conversa.
— Por que você não vai na frente? Eu vou ver com o pessoal se eles precisam de alguma coisa.
Enquanto ele fala, o rosto de Emili relaxa, percebendo que ele não está inventando uma desculpa.
Yuri nunca foi esse tipo de cara. Mas, nos últimos seis meses, ela vinha sentindo ele cada vez mais distante.
Ela tinha suas teorias — afinal, era a melhor amiga dele há três anos. Mesmo assim, como ele nunca falou abertamente sobre isso, ela andava pisando em ovos.
— Se não precisarem, eu só tomo um banho rápido e te encontro no centro. O que acha? — Yuri sugere.
— Combinado! — ela sorri, dando alguns passos para trás em direção à porta da recepção. — Me manda mensagem se der certo, tá? Eu te espero lá.
Ela sai, acenando para Yuri.
"O que tá acontecendo com ele ultimamente?", pensa Emili, seguindo atrás de outros hóspedes em direção à entrada do resort.
Na recepção, Yuri enterra o rosto nos braços cruzados sobre o balcão e solta um suspiro frustrado.
— E agora isso? — ele murmura para si mesmo.
— Deve ser alguma conspiração do universo pra me ferrar.
— Que resmungueira toda é essa, pegador? — uma voz feminina surge atrás dele.
Não tinha como confundir quem era.
— Oi... Ana — ele responde, ainda com o rosto apoiado nos braços.
— Mal chegou e já tá cheio de esqueminhas, hein? Quem era aquela gatinha? Alguma crush? Ela parecia te conhecer bem!— Ana dispara as perguntas, num tom claramente provocador.
— O-o quê? Não! Quem? Ela? Ah... ela é só uma amiga da faculdade. — ele gagueja, em pânico, tentando disfarçar o quanto ela acertou em cheio.
"Como é que ela percebeu tão rápido? Não pode ser tão óbvio assim!", ele pensa, tentando se recompor.
Ana observa a tentativa patética de explicação com uma expressão neutra.
— Aham. Claro! Super convincente e sutil. — ela cai na gargalhada bem na cara dele.
O rosto de Yuri fica vermelho como um tomate enquanto ele fica ali, emburrado, derrotado.
— Enfim, cadê meu presente? — ainda rindo, Ana muda de assunto com pena de Yuri.
— A-aqui. — ele pega uma caixinha branca com um laço azul de uma das gavetas do balcão e entrega pra ela, ainda evitando olhar nos olhos dela.
O rosto de Ana muda na hora para um sorriso suave.
De olhos fechados, ela aperta a caixinha contra a bochecha, segurando com as duas mãos.
— Obrigada! — ela diz, com um tom genuinamente feliz.
Vendo isso, Yuri relaxa e sorri de volta.
— Não é nada demais. — ele diz, educado. — É por ontem, mas também... — ele faz uma pausa.
— Hm? — Ana abre os olhos, ainda segurando a caixinha perto do rosto.
— Pra comemorar. — ele continua. — Eu não consegui dizer direito ontem, mas eu fiquei muito feliz de saber que você tá melhor agora.
A surpresa dura só um instante, dando lugar ao sorriso amigável de Ana.
— Então foi por isso que você chorou? — ela provoca.
— Sim... — ela mesma responde. — Claro que foi!
Ela sabia que não era esse o verdadeiro motivo das lágrimas da noite anterior, mas não via por que trazer isso à tona.
Por um breve momento, o silêncio preenche o espaço entre os dois.
— Pra ser sincera — Ana começa, com a voz mais vulnerável. — Eu fiquei um pouco com medo de falar com você depois de tanto tempo.
Ela brinca com o laço do presente enquanto fala.
— Medo de a gente se sentir como estranhos, ou algo assim. — ela aperta a caixinha contra o peito. — Fico feliz em saber que ainda importa pra você.
Os dois sorriem, e naquele silêncio, eles enxergam as crianças que foram um dia, quando eram inseparáveis.
— Não quero estragar a surpresa, então vou abrir depois, quando eu for pra casa, tá? — Ana aponta para a caixinha.
Algo soa estranho para Yuri.
— "Ir" pra casa? — ele pergunta. — O spa já não fechou?
— Fechou. — Ana responde, colocando o presente sobre o balcão e se recostando na parede. — Mas eu tô esperando a secadora terminar de secar uns lençóis e toalhas.
De vez em quando, Ana fica até mais tarde para terminar a limpeza e organização do spa antes de ir embora. Para ela, isso nunca foi um problema, já que costuma usar o tempo de espera para aproveitar a sauna ou a piscina.
— É bem melhor do que acordar ainda mais cedo pra fazer um monte de tarefas antes dos clientes chegarem. — ela diz, bocejando e alongando o pescoço. — Eu não sou nada matinal!
O rangido agudo do banco alto da recepção assusta Ana quando Yuri se levanta de repente, com o rosto sério.
— Eu faço! — ele exclama, olhando nos olhos dela.
Por um instante, Ana só encara, confusa.
— ... O quê? — ela pergunta.
— Eu organizo o spa. — ele repete, com um tom urgente. — Assim você não precisa ficar até tarde, né?
— Tá tudo bem, não precisa. — Ana tenta aliviar. — Eu faço isso quase toda semana.
— Por favor. — Yuri insiste.
A determinação dele em ajudar com algo tão simples só deixa Ana ainda mais sem entender.
— Você ao menos sabe onde guardar os lençóis depois que saírem da secadora?
— Não... — ele admite. — Você pode me mostrar?
— Tem certeza? — ela cruza os braços, analisando a teimosia dele. — Sua crush não tinha te chamado pra sair com ela?
— Eu sei. — ele responde. — Mas eu prometi pros meus pais que ia cuidar do resort enquanto eles estão fora.
A expressão de Ana suaviza, como se finalmente entendesse parte do peso que vem carregando.
— Isso é minha prioridade agora. — ele diz, firme.
Ana suspira e solta uma risadinha, afastando a franja do rosto.
— Tá bom, senhor teimoso. Se você insiste. — ela sorri.
Yuri retribui o sorriso, aliviado.
— Eu aceito a companhia com prazer. — Ana completa, com um sorriso ainda maior.
Mais tarde naquela noite, Emili está sentada numa mesa na calçada, cercada de turistas assistindo a um show de samba ao vivo.
Sobre a mesa, uma caneca de cerveja pela metade e o celular, que ela acende com um toque.
"20:03 — 19/12"
É a única coisa na tela. Nenhuma mensagem nova.
"Ele deve ter ficado preso no trabalho", ela pensa, soltando um suspiro frustrado.
Ela apoia o cotovelo na mesa, o rosto na mão, os olhos fixos no celular.
"Mas eu não consigo deixar de pensar... será que ele ainda se culpa por aquele acidente?"
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